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Cuidando da Mente Materna: Saúde Mental e Maternidade

A jornada da maternidade é como um intricado quebra-cabeça, onde peças de amor, sacrifício e autodescoberta se encaixam. No entanto, por mais que a imagem final possa ser bela, há desafios emocionais e psicológicos que frequentemente permanecem obscuros.

Para trazer à tona esses aspectos muitas vezes negligenciados, conversamos com a psicóloga e psicanalista Andressa Dannemann.

Quais são alguns dos desafios psicológicos comuns que as mulheres enfrentam durante a maternidade? Como a psicologia pode ajudar a lidar com esses desafios?

Os desafios já começam na decisão de se tornar mãe ou não. Quando uma mulher decide não ter filho sofre inúmeros julgamentos. A gente sabe como uma maternidade não desejada pode ser prejudicial para mãe e o bebê. Uma mulher também é julgada quando vai fazer tratamento para engravidar: “quis priorizar o trabalho agora não consegue engravidar”. Como se o trabalho fosse um “capricho” para mulher. Sabemos que muitos pais não assumem a paternidade (estatística de mulheres chefiam os lares) e muitas delas precisam ter o mínimo de estabilidade porque são mandadas embora logo após a licença maternidade ou as autônomas diminuem horas trabalhadas e consequentemente sua renda. Quando decidem adotar, além de passar por longo processo, sofrem preconceitos porque filho adotado pode vir “dar trabalho” no futuro, como se biológico não desse.

Durante a gestação temos algumas ansiedades comuns. No primeiro trimestre, por exemplo, medo de sofrer aborto. No segundo trimestre medo de descobrir ou confirmar problemas de saúde no feto. No último trimestre medo do parto. Quando nasce o medo de não ser uma boa mãe ou não saber como cuidar.

Todas essas ansiedades, expectativas e medos podem ser temas para trabalhar na psicanálise ou psicoterapia. Esses medos podem ser desconstruídos e elaborados nas sessões. Também, em alguns casos, uma orientação psicológica pode ser eficaz.

Como a maternidade afeta a saúde mental das mulheres? Quais são os sinais de alerta de problemas de saúde mental durante a maternidade e como eles podem ser tratados?

No início as principais alterações psíquicas que podem aparecer.

Baby Blues que é um sentimento de insegurança, cansaço, irritabilidade e tristeza devido as mudanças hormonais e a nova rotina. Normalmente duram em tornos de 15 dias.

A depressão pós-parto surge nas primeiras semanas e pode durar até um ano. Apresenta sintomas como: humor deprimido na maior parte do tempo, perda de interesse ou prazer nas atividades, fadiga, alteração de sono e apetite, sentimento de culpa e inutilidade e ideias de morte ou suicídio. Necessitam de acompanhamento médico e psicológico. Além da rede de apoio.

Mais raro pode acontecer Psicose puerperal. Nesses casos a mãe pode ter delírios e alucinações. Pode, por exemplo, escutar vozes falando para ela machucar o bebê. Necessário acompanhamento psiquiátrico e psicológico.

Em uma visão mais psicanalítica podemos entender que o puerpério é uma fase de profundas transformações e elaborações de lutos. A maternidade é muito idealizada e quando o bebê nasce “não é bem assim como eu imaginei”, “não é bem assim que eu imaginei como ele seria”. A mãe tem de desfazer a imagem idealizada para a maternidade real. Prefiro usar o tema possível a real porque normalmente as pessoas associam a maternidade real a algo “sofrido, difícil demais”. A meu ver a maternidade é trabalhosa, exige renúncias e investimentos ao longo da vida. Tem suas dificuldades e suas alegrias. Caso a maternidade tornou-se algo “sofrido” é necessário procurar acompanhamento psicológico.

No mais temos o quadro de exaustão física e mental por não ter rede de apoio ou por se sentir na obrigação de dar conta de tudo.

Como lidar com a culpa materna? Muitas mulheres enfrentam sentimento de culpa em relação à maternidade. Como podemos entender e lidar com esses sentimentos de forma saudável?

Sabendo que não podemos dar conta de tudo, controlar tudo o tempo inteiro. A falta sempre vai existir. Necessário estabelecer as urgências e prioridades. Quando um filho adoece a prioridade são os cuidados em relação a saúde a casa pode esperar, por exemplo.

Qual é o papel do apoio social na experiência materna? Como amigos, familiares e a comunidade podem ajudar as mulheres a se adaptarem à maternidade?

Um bom começo é não julgando essa mãe. Cada mãe é singular. Cada uma tem condições físicas, emocionais, financeiras e sociais e fazem o que podem dentro de suas possibilidades.

Perguntando como pode ajudar. As vezes pode ser preparando uma refeição, se oferecer para ficar com a criança para os pais irem as compras, pode ser ajudando em uma tarefa escolar.

 

Como a maternidade pode impactar a identidade de uma mulher? Quais são as mudanças comuns na autoimagem e na identidade que as mulheres podem experimentar após se tornarem mães?

Como dito anteriormente não deixando de ser mulher. Desejando para além da maternidade. Não se sentir culpada por isso.

 

Como equilibrar as demandas da maternidade com outras responsabilidades, como trabalho, relacionamentos e autocuidado? Quais são algumas estratégias eficazes para evitar o esgotamento e manter um equilíbrio saudável?

Ninguém da conta de tudo e está tudo bem. É conseguir entender que algumas coisas dão trabalho e precisam ser feitas mesmo e outras podem esperar, podem não sair tão bem-feitas.

Como a teoria psicanalítica aborda a maternidade? Quais são os principais conceitos ou princípios que podemos aplicar para entender melhor a experiência materna?

Para a psicanálise a maternidade “não vem pronta”, é uma construção. Dizemos que, mesmo o filho biológico, precisa ser adotado. A mãe, ou quem exerce a função materna, é fundamental na constituição psíquica do bebê. Quando o bebê nasce está em completo desamparo. Ele precisa da mãe para sobreviver. Uma mãe acolhe, alimenta, nomeia suas necessidades. No início dessa relação ocorre uma alienação entre mãe e bebê. Com o passar do tempo espera-se que, outras pessoas entrem na relação, o pai, por exemplo, para promover a separação. Conforme a criança vai crescendo vai percebendo o mundo a sua volta e ficando independente.

Exemplos de uma separação:

Quando a mãe diz: “você é meu mundo, mas preciso trabalhar”

Quando o pai diz: “Hoje eu vou levar a mamãe passear”

Quando a vó diz: fica com a vovó porque a mamãe precisa ir ao salão”

Para a psicanálise quando a mulher se torna mãe ela não deve deixar de ser mulher. Ela precisa desejar para além do filho. Isso é saudável para ela e para a criança.

Como a psicologia pode contribuir para promover uma cultura mais inclusiva e solidária em relação à maternidade? Quais são algumas maneiras de apoiar mulheres de diferentes origens e circunstâncias em sua jornada materna?

Grupos de apoio, orientação psicológica e acompanhamento psicológico.

Andressa Wolf Miranda Dannemann é Psicóloga Clínica e Psicanalista, acumulando 20 anos de experiência.

Possui formação contínua em psicanálise, especialização em Psicologia Clínica com abordagem psicanalítica pela PUC PR, especialização em Saúde Mental, Psicopatologia e Psicanálise também pela PUC PR, e graduação em Psicologia pela UTP. Seu número de CRP é CRP08/10071.

www.andressadannemannpsi.com.br

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